Ronco e a apneia do sono

Se você ronca ou conhece alguém que não deixa ninguém dormir direito por causa do barulho, procure um especialista. Os sintomas precisam ser tratados, pois podem desencadear um grave problema de saúde. Ninguém se preocupa com o ronco como deveria. Todos os especialistas  são categóricos ao afirmar que o ronco é banalizado pela população. Claro, o ruído incomoda quem vive com o roncador, e às vezes, até acorda a pessoa que tem, mas as pessoas não encaram esse transtorno como uma doença. Se antigamente o ronco era sinal de sono profundo, agora ganhou status de alerta. Pode até parecer exagero, mas não é. O ronco pode ser o sinal de um problema mais grave, como a apneia do sono, que pode levar a maiores problemas de saúde, pela falta de oxigênio no cérebro como aumento da pressão arterial, risco de infarto, probabilidade aumentada de acidentes doméstico/trabalho e automobilístico, déficit de atenção, perda da libido. A apneia reduz o tempo de vida das pessoas. Se a parada respiratória for maior do que 10 segundos, pode trazer consequências graves. Em alguns casos elas alcançam ou ultrapassam 60 segundos, e aí pode ser fatal. Os médicos estimam que pelo menos 50% da população brasileira ronque eventualmente e, 20% tornam-se roncadores habituais após os 40 anos de idade. Muitos especialistas dizem que é um problema de saúde pública. Não é uma doença nova e não é encarada com a seriedade necessária. Toda pessoa que ronca precisa ter acompanhamento de um profissional da saúde. Se você conhece alguém nessas condições ou se é você quem ronca, não perca mais tempo, marque uma consulta já. Aproveite para saber o que o ronco pode provocar e como se livrar dele, pelo bem da sua saúde e do seu parceiro(a) também.

Por que algumas pessoas sofrem com a apneia e o ronco?

São vários os fatores que influenciam na apneia e consequentemente no ronco. A apneia é um sinal de que existe uma dificuldade na passagem do ar pelas vias aéreas. Os motivos são vários, que vão desde alterações anatômicas e funcionais como flacidez na musculatura do nariz até a garganta, malformação da face inferior (como queixo para trás), idade avançada (é mais comum a partir dos 40 anos), desvio do septo nasal, rinites, hipotireoidismo que aumenta o volume da língua e assim, reduz o espaço da passagem do ar. As alterações posturais, situações emocionais, uso de medicações como sedativos e antidepressivos, horário da alimentação e consumo de bebida alcoólica, também influenciam na síndrome da apneia do sono e no ronco. Acontece mais durante a inspiração do que na expiração. Quando há obstrução, os músculos da região torácica relaxam, e aí abrimos a boca para respirar. Ali o ar tem muita dificuldade para passar — ele tem pela frente a língua, a úvula e as amídalas. Ocorrendo assim a vibração e… o ronco. O grau de estreitamento da passagem do ar influencia a musculatura da região. Quanto mais flácida, mais sonoro se apresenta.

A escala chamada Mallampati avalia o tamanho da língua e o quanto é visível do espaço da orofaringe e amigdalas. Esta escala vai do nível I ao IV, quanto maior o nível, maior é a possibilidade de apneia e ronco, pois há obliteração da passagem de ar pela língua.

  1. Quando nós dormimos, os músculos das vias aéreas se relaxam – não só eles, mas toda a musculatura do corpo, é claro. Assim, como ficam totalmente distensionados, acabam reduzindo o espaço por onde o ar passa.
  2. Ao passar por esse aperto, o ar faz tecidos como palato mole, a língua e as amígdalas vibrarem, produzindo  um ruído, o ronco. Problemas como a obesidade agravam a situação, porque o acúmulo de gordura local diminui ainda mais o espaço para a passagem de ar.

A apneia pode causar problema no sono?

Geralmente, quem tem apneia não tem um bom sono. A pessoa sofre de mau humor matinal, sente cansaço o dia todo e aquela tremenda vontade de descansar. Pode afetar também o rendimento no trabalho. Você já não ouviu falar de alguém que parece estar sempre esgotado? Essa pessoa pode sofrer com o problema. Se você sente esses sintomas e mora sozinho (e nunca acordou com o próprio ronco) procure um profissional da saúde (dentista, médico ou fonoaudiólogo) para fazer uma avaliação mais detalhada.

Existem outros exames realizados em laboratórios específicos; chamado de polissonografia, que consiste em dormir uma noite em uma clínica do sono,   ligado a um aparelho com eletrodos colocados na sua cabeça que fará o mapeamento dos estágios do sono, a atividade respiratória, se há ou não paradas enquanto você dorme (a chamada apneia), a intensidade do ronco, movimentos do tórax e pernas. Essas informações são passadas para um computador, onde os dados são avaliados para fazer o diagnóstico final.    O médico otorrinolaringologista fará exames específicos usando um endoscópio para avaliar a passagem de ar desde o nariz até a faringe. Desvio de septo, rinites, aumento da amigdalas também podem influenciar no aparecimento do ronco e apenia.

O dentista avaliará a face e todas as estruturas orais como os ossos maxilar, mandibular e hioide, dentes, língua, lábios. Uma boca estreita com uma língua larga terá uma probabilidade maior de desenvolver um distúrbio respiratório.

A escala de Epworth que mede o nível de sonolência diurna, é um grande aliado para avaliação do sono. Ela avalia a possibilidade de dormir ou cochilar durante o dia nessas seguintes situações:

Chance de cochilar 0 a 3 Situação

Sentado e lendo

Vendo televisão

Sentado em lugar publico, como sala de espera, cinema, teatro, igreja

Como passageiro de carro, trem ou metro andando por 1 h sem parar

Deitado para descançar de tarde

Sentado e conversando com alguém

Sentado após uma refeiçao sem álcool

No carro parado por alguns minutos no trânsito
Total

0 - nenhuma chance de cochilar
1 - pequena chance de cochilar
2 - moderada chance de cochilar
3 - alta chance de cochilar
Dez ou mais pontos – sonolência excessiva que deve ser investigada

100% do ciclo do sono

Estágio 1

Sono leve. A atividade muscular fica mais leve. Acontecem algumas contrações musculares.

Estágio 2

A respiração e as batidas do coração diminuem. Leve diminuição da temperatura do corpo.

Estágio 3

Começa o sono profundo, o cérebro começa a gerar as ondas delta.

Estágio 4

Sono bastante profundo. Respiração rítmica. Atividade muscular limitada. O cérebro produz ondas delta.

Estágio 5

Movimento rápido dos olhos. As ondas cerebrais aceleram e o sonho acontece. Os músculos relaxam e a taxa de batimentos cardíacos aumenta. A respiração é rápida mas não profunda.

Como é possível controlar a apneia do sono e o ronco?

Inicialmente é necessário saber as causas deste distúrbio. Uma boa higiene do sono pode resolver este problema, como procurar dormir sempre no mesmo horário, alimentar-se quatro horas antes de dormir, evitar bebida alcóolica três horas antes de dormir ou consumir com moderação, quarto com iluminação e ventilação adequadas. Medicações antidepressivas ou sedativas também fazem o relaxamentos das vias aéreas, devendo serem evitadas ou usadas com cautela conforme recomendação médica.

O controle de peso também é fundamental. A obesidade pode causar ronco — e 50% da população brasileira, conforme o Ministério da Saúde, sofre com o sobrepeso.  Embora a parte do corpo que mais evidencie o excesso de peso seja o abdômen, a deposição de gordura também ocorre na região do pescoço, impedindo a livre passagem do ar, devido ao estreitamento da faringe.  Por isso, qualquer tratamento do ronco é mais eficiente se for acompanhado por um regime adequado. Isso não quer dizer, é claro, que pessoas no peso ideal não ronquem, mas a probabilidade é bem menor. Nos homens o ronco é mais comum que nas mulheres. Como ele interfere na qualidade do sono, a pessoa se sente indisposta, não tem vontade (nem ânimo) de praticar alguma atividade física. E aí o ciclo se mantém.

A bebida alcoólica e o fumo também são grandes inimigos para o tratamento. O álcool, sabidamente é capaz de relaxar o corpo e o mesmo efeito se estende para a musculatura da garganta. O resultado nós conhecemos. O álcool, assim como alguns tranquilizantes e medicamentos para dormir, relaxam a musculatura do corpo. De dia, isso não costuma ser problema. De noite, entretanto, o resultado é um afrouxamento exagerado dos músculos, uma vez que eles já ficam naturalmente mais relaxados quando dormimos. Por isso, mesmo quem não ronca habitualmente, pode ter o problema nos dias em que consome bebidas alcoólicas. Com o fumo a história é bem parecida, pois os componentes do fumo como a nicotina e o alcatrão fazem uma vasoconstrição na faringe. Caso seja fumante, pare de fumar! Fumantes têm três vezes mais chances de sofrer de apneia do sono do que não fumantes ou ex-fumantes.

A idade e sexo também influenciam no aparecimento da apneia do sono e o ronco. Os homens acima de 40 anos de idade são mais propensos a doença, pela produção do hormônio testosterona e as mulheres após a menopausa deixam de produzir estrogênio na mesma quantidade que não permitiam que a musculatura cedesse.

A posição de dormir pode influenciar nos distúrbios do sono, com exceção dos bebês que, segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, devem dormir de barriga para cima. Para os adultos a situação é outra, quando dormimos de barriga para cima, a língua relaxa, caindo para trás e para baixo, obstruindo parcialmente assim a passagem do ar, podendo ocasionar o aparecimento da apneia do sono e o ronco. O ideal é dormir de lado com apoio nas pernas para que a coluna não sofra alteração ou rotação no quadril. A cabeça deve estar mais alta que o corpo, sendo que o travesseiro deva estar acima dos ombros para acomodar toda a cabeça.

O ronco pode acabar com relacionamento de muitos casais, incialmente mudando de quarto e muitos chegam as vias de fato da separação. É insuportável viver com uma pessoa que ronca o tempo todo e impedindo que o outro tenha o descanso merecido.

Há pessoas que tem medo de viajar ou dormir em hoteis pois o seu ronco irá atrapalhar o sono dos outros. Como no relato da Sr Gilberto Cerlo de 62 anos, que achava que o seu ronco não era grave, até ser diagnosticado com apneia moderada e que poderia sofrer uma parada cardiaca devido a apneia. Tinha trauma de dormir na casa de alguém por medo de roncar e acordar todo mundo.

Qual o tratamento para apneia do sono?

Dependendo do diagnóstico o tratamento poderá ter inúmeras variáveis. Como a apneia do sono possui escalas entre leve, moderada e severa, o seu tratamento também será diferenciado.

O odontólogo poderá tratar a apneia leve e moderada, com o uso de aparelhos específicos. São confeccionadas em acrílico e usadas na boca durante o sono. Elas são reguladas para que a parte da frente empurre a mandíbula e, assim, amplia a passagem da via aérea. Essa nova situação anatômica é capaz de reduzir a vibração dos tecidos moles da orofaringe, que resulta no ronco e assim, permitir a ventilação adequada durante o sono. Eles são feitos a partir de medidas personalizadas através da moldagem da maxila e mandíbula, montadas com um parafuso expansor entre eles para que faça o tracionamento da mandíbula para frente. O aparelho adequado deverá permitir o movimento de lateralidade da mandíbula. Existe passagem de ar entre os maxilares, o que garante uma segurança maior em caso da pessoa estar resfriada ou sentir-se medo de ficar sufocada pela impossibilidade de respirar pela boca. Existem vários modelos de aparelhos, consulte o seu dentista, ele poderá dizer qual o melhor para o seu caso.

Outro tipo de aparelho chama-se  CPAP e é um modelo eletrônico.

CPAP é a sigla correspondente a “continuous positive airway pressure” (pressão positiva contínua nas vias respiratórias).

O tratamento com pressão positiva contínua nas vias respiratórias é o tratamento não invasivo mais eficaz para a apneia do sono severa. Os sistemas de CPAP são compostos por um gerador de ar, um tubo de ar e uma máscara (geralmente uma máscara de nariz). O gerador de ar faz o ar circular através do tubo e a máscara de nariz. O ar passa pelo nariz até a garganta, onde a leve pressão mantém abertas as vias respiratórias superiores. A baixa pressão de ar não interfere na respiração, apesar de algumas pessoas necessitarem de algumas noites para se acostumarem com a sensação de fluxo de ar positivo. Muitos médicos descrevem esta terapia como um “encanamento” pneumático, que é literalmente um conduto de ar que mantém aberta a garganta. A língua e os tecidos moles se retraíram para a parte posterior da garganta, mas a pressão do ar que é bombeado pelo gerador mantém as vias respiratórias superiores abertas. Ele é considerado o aparelho ideal para o tratamento da apneia, e salva muitas vidas devido a complicações da síndrome da apneia, como hipertensão arterial, AVC, risco de acidentes automobilísticos, pelo sono não reparador. Porém, possui alguns inconvenientes como barulho produzido pelo compressor, escape do ar pela máscara, necessidade de eletricidade, custo elevado, etc.

Existe também a possibilidade de cirurgias para a correção do desvio de septo, remoção da amigdala hiperplásica, remoção da úvula e obstrução das vias aéreas superiores. Este método é muito invasivo e deve ser avaliado com cautela para cada caso.

A acupuntura agora é um grande aliado no tratamento da apneia do sono e ronco. Este novo método de tratamento está sendo muito utilizado, pois não tem efeito colateral, aliás o seu maior efeito colateral é o bem estar produzido. Conhecido como método funcional, algumas agulhas podem realmente trazer o equilíbrio do sono, diminuição dos níveis da apneia, eliminação ou diminuição dos efeitos causados pela síndrome como cansaço matinal, irritação, risco de AVC e infarto. Novos estudos comprovam que a acupuntura pode diminuir o nível da apneia moderada a níveis de normalidade em poucas semanas.

A fonoaudiologia está dentro das possibilidades de tratamento para o ronco e apneia do sono bem sucedido. Através de exercícios específicos para a língua e tecidos periorais, ela trabalha na hipotonicidade dos músculos da língua e bochechas. Eles deverão ser feitos todos os dias e defronte ao espelho. Como no exemplo abaixo: